14 fevereiro, 2009

Um novo olhar para o homem que transformou o paisagismo tropical em arte

O Brasil está repleto de florestas e todo tipo de plantas, flores e árvores exóticas. Mas até que o paisagista brasileiro Roberto Burle Marx viesse para domar e moldar a flora exuberante de seu país, seus conterrâneos tinham desdém por riquezas naturais que, frequentemente de forma literal, floresciam em seus quintais.
"Burle Marx criou o paisagismo tropical como o conhecemos atualmente, mas ao fazê-lo ele também fez algo ainda maior", disse Lauro Cavalcanti, o curador de uma exposição dedicada ao trabalho de Burle Marx, que durará até março no Museu do Paço Imperial daqui. "Ao organizar as plantas nativas de acordo com os princípios de estética da vanguarda artística, especialmente o cubismo e o abstracionismo, ele criou uma gramática nova e moderna para o paisagismo internacional."
Burle Marx nasceu em 1909 e para marcar este centenário, o museu buscou mostrar a extensão plena de sua criatividade. (A exposição irá em seguida para São Paulo.) Além de modelos em escala e desenhos de seus projetos de paisagismo mais célebres, a exposição inclui quase 100 de suas pinturas, assim como desenhos, esculturas, tapeçarias, jóias, cenários e figurinos que desenhava para produções teatrais. A meta é mostrar como seu trabalho em um campo se misturava ao seu trabalho em outros.
"Ele era realmente polivalente", disse William Howard Adams, o curador-chefe de uma exposição apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1991. "Mas o que se destaca nele é que considerava o paisagismo como igual à arquitetura, não um cenário de fundo ou uma decoração, e a elevou a aquele nível."Por sua vez, Burle Marx sempre se imaginou primeiro e acima de tudo como pintor, o que explica a abundância de telas na exposição. O paisagismo, ele escreveu certa vez, "era apenas um método que encontrei para organizar e compor meus desenhos e pinturas, usando menos materiais convencionais".
Foi enquanto estudava pintura na Alemanha, durante a República de Weimar, como contaria posteriormente, que Burle Marx percebeu que a vegetação que os brasileiros desdenhavam como mato, preferindo pinheiros e gladíolos importados para seus jardins, era realmente extraordinária. Visitando o Jardim Botânico em Berlim, ele ficou surpreso ao descobrir muitas plantas brasileiras na coleção e rapidamente viu o potencial artístico não explorado de suas diversas formas, tamanhos e tons."A forma como ele sintetizou arte e horticultura em um design tridimensional é realmente excepcional", disse Mirka Benes, uma historiadora de paisagismo que leciona na Universidade do Texas, em Austin. "Ele realmente tinha um olhar de pintor, que você podia sentir em seu senso soberbo de cor e forma, e tinha um entendimento dos princípios do modernismo e do dadá, tendo claro conhecimento e estudado a obra de pessoas como Hans Arp."
Como Arp, Burle Marx era descendente de alemães por parte de pai e francês por parte de mãe. Ele nasceu em São Paulo, mas se mudou ainda pequeno para o Rio de Janeiro, onde um de seus vizinhos era o arquiteto modernista Lúcio Costa, o futuro projetista de Brasília, que deu a Burle Marx suas primeiras oportunidades de trabalho.
Apesar de Burle Marx ter tido uma mão no projeto de algumas partes de Brasília, incluindo seus jardins suspensos, ele é especialmente conhecido entre os brasileiros por muitos de seus projetos ambiciosos aqui no Rio. "A face desta cidade traz sua marca", disse Cavalcanti.
O maior parque do Rio, o do Aterro do Flamengo, a sudoeste do centro, é um exemplo inicial de um dos projetos marcantes de Burle Marx. Mas nada supera as calçadas de Copacabana, com mosaicos abstratos coloridos de pedra se estendendo ininterruptamente por todo a extensão da praia. Dos andares superiores dos prédios que margeiam a Avenida Atlântica, Burle Marx parece ter pintado uma tela única de cerca de cinco quilômetros de comprimento.
"Apesar de gostar de projetar jardins para amigos, o que lhe dava mais satisfação era trabalhar em espaços públicos", disse Haruyoshi Ono, o arquiteto e paisagista brasileiro que começou a trabalhar com ele em 1965 e hoje dirige a empresa de paisagismo que Burle Marx abriu nos anos 50. "Ele costumava dizer que quanto maior e mais aberto um projeto, mais ele gostava, porque poderia ser desfrutado por todas as camadas sociais."
Mas o esforço mais elaborado e demorado de Burle Marx pode ter sido uma propriedade abandonada que ele comprou nos arredores da cidade, em 1948, e transformou em um lar, estúdio e jardim. Atualmente um marco nacional e atração turística com mais de 3.500 espécies de plantas, ela funcionou como sua oficina, laboratório e escritório até sua morte, em 1994.
No auge de sua carreira, Burle Marx era altamente estimado entre seus pares nos Estados Unidos. Em 1965, o Instituto Americano dos Arquitetos lhe concedeu seu prêmio de belas artes, dizendo que ele era "o verdadeiro criador do jardim moderno".
Mas a menos que tenham viajado para os trópicos, os paisagistas americanos tiveram pouca oportunidade de ter uma exposição direta à sua obra. Apesar de ter projetado alguns jardins em climas temperados, notadamente para os prédios da ONU na França e na Áustria, "você certamente não terá um jardim Burle Marx em Wisconsin ou Vancouver", disse Benes, "a menos que traduza suas idéias para sistemas de plantas locais, o que parece fácil no papel, mas não é".
Nos Estados Unidos, o projeto mais antigo conhecido de Burle Marx foi a casa de Burton Tremaine, em Santa Bárbara, Califórnia, encomendada em 1948. Ele também projetou jardins para o Hotel Hilton em San Juan, Porto Rico, e para a sede da Organização dos Estados Americanos, em Washington, assim como foi contratado para reformar o Biscayne Boulevard, em Miami.
Ao longo da última década ele despontou como "uma espécie de herói" para uma nova geração de paisagistas americanos, disse Karen Van Lengen, reitora da Escola de Arquitetura da Universidade da Virgínia. Ele é admirado não apenas por sua perícia técnica formidável como artista, ela disse, mas também por seu foco no aspecto científico do paisagismo e pela atenção que ele dedicou às comunidades de plantas e o relacionamento delas com o meio ambiente.
Burle Marx foi quase tanto um botânico quanto um paisagista, apesar de autodidata. Mais de 50 espécies de plantas foram batizadas por ele, e ele foi um dos maiores especialistas do mundo em bromélias, a família de plantas à qual pertence o abacaxi. Mesmo com idade avançada, ele viajava regularmente para a Amazônia e para o Sudeste Asiático em busca de plantas incomuns e atraentes que pudessem ser cultivadas em seu jardim doméstico e posteriormente usadas em novos projetos."Burle Marx foi presciente em sua reverência às plantas e por sua administração do viveiro, por sua capacidade de ver o jardim tanto como uma experiência estética quanto parte da ecologia", disse Van Lengen. "Este é o desafio para os paisagistas atuais, unir estas energias."
"Burle Marx já fazia isso muito antes da maioria das pessoas começarem a pensar a respeito, o que realmente o destaca."

artigo por Larry Rohter, Rio de Janeiro, NYT,Tradução: George El Khouri Andolfato; imagem: Cláudio Freitas
No centenário de Burle Marx todos os olhares que redescobrem o seu olhar são uma reverencia a sua obra viva, os jardins, 'necessitados' de manutenção e cuidados.

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 Burle Marx

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